What is life really like inside a conflict zone? A group of young people decided to visit the occupied territories of Palestine to see the land behind the conflict . “See as a Foreigner” reveals the stories, impressions, and feelings of a group of westerners travelling in the Holy Land.
Como é o dia-a-dia numa zona de guerra? Um grupo de jovens estudantes visitou os territórios ocupados da Palestina, numa tentativa de ver o que existe por detrás do conflito israelo-palestiniano. “See as a Foreigner” revela as historias e impressões de um grupo de ocidentais em viagem pela Terra Santa.
Producer/Produtor
Sofia Saldanha
Contributors
Isabella Lennert
James Haywood
Meeshka Barnabe
Ahlam Triki
Patrick William Butterfield
Aisha Mirza
and
Matthew Bumford
Marian Hadley
(in the cave)
Featured music
Le Trio Joubran, “Majaz”, “Masâr” (TBC, 2007)
Le Trio Joubran, “Randana”, “Ahwak” (Randana/Fairplay, 2005)
Estás aqui comigo à sombra do sol escrevo e oiço certos ruídos domésticos e a luz chega-me humildemente pela janela e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama que uso para ser também isto este bicho de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o que faço ou então sou eu que julgo que o sabem e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço bem entendido o que faço com este braço Estás aqui comigo e à volta são as paredes e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro nome embora no mesmo nome este nome de terra de dor de paredes este nome doméstico Afinal fui isto nada mais do que isto as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa uma coisa para além disto que não isto Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos tu és em cada gesto todos os teus gestos e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas perdoa pagares tão alto preço por estar aqui perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Ruy Belo Toda a Terra Todos os Poemas Assírio & Alvim 2000
Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu, Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala, Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou, Tão distinta, discreta, boa e doce. Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos Das pessoas que vão entrando; Aquela senhora de modos tão finos E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita sombra; Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis, De que não me atrevo a pedir ramo algum Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado de pedir ― Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado, Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis e não me apetecer, francamente… E assim, imobilizado o meu pálido yes E falando francês àquela senhora inglesa, Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ― Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas de Inglaterra, E pôs a barra azul na sala, por poesia, E escureceu os móveis numa tarde toda dourada Em que mais triste se sentia. A senhora inglesa, Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos trouxe para este dia; A senhora inglesa dos olhos claros; A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas correctas, E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia Só com o seu sim ou o seu não, O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar as gengivas E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer, Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em Inglaterra! O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena (À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus dedos como asas) O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar da Inglaterra, E desta hora do chá a uma outra hora lá dela, Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida, Que não existiu talvez senão para ser lembrada Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread ― Que é assim a vida…
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento ‹ Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim ‹ à beira-rio, Pagã triste e com flores no regaço.
I Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande Canal e pedi uma coca cola... É terrível chegar ao fim do século dos refrigerantes com esta infinita sensação de sede.
O século vinte é um vasto deserto de poços de petróleo. Perfurei o solo da minha terra mas o que me saiu foi um jacto de poemas.
Prospecções recentemente efectuadas revelaram que sob as areias movediças de Veneza se encontra um dos maiores lençóis petrolíferos da Europa.
Esta noite tive um pesadelo. Nas minhas veias não era sangue que corria era petróleo. E acabara eu de desco- brir um poço de sangue.
Eu não estive em Awshwitz nem em Babi Yar nem em Mai Lai. Estive sempre aqui na cama.
& a visão da primeira bomba no céu de Hiroshima fez-me crescer momentaneamente a água na boca, assim como a milhares de apreciadores de cogumelos.
Einstein foi uma espécie de pirilampo, uma das raras Pessoas a possuir luz própria num século onde a maio- ria tacteava no escuro.
24 july 1969 5 am. Neil Armstrong punha o primeiro pé na lua. Eu dormia profundamente. E o meu sono tornou-se nesse momento setenta quilos mais pesado.
Desde que os americanos descobriram que as estrelas tinham pulgas que não me deixa esta comichão sideral.
O meu século não chegou a andar de gatas. Com oito anos já se arrastava pelas minas de carvão, pouco tempo depois combatia nas trincheiras. E as únicas lágrimas que lhe vi chorar foram as dos gases lacrimogéneos.
Picasso morreu antes que pudesse levar a cabo o seu sonho, um único fresco que ocupasse não a abóbada da Capela Sixtina mas a abóbada celeste.
Fernando Pessoa morrera muitos anos antes numa clí- nica lisboeta completamente ignorado, depois de ter colocado um padrão com a cruz das quinas num dos areais de areia mais fina do universo.
Talvez o meu século seja uma comédia banal, embora filmada por homens de talento, onde algumas estrelas se passeiam com tanto àvontade como se fosse na Via Láctea e de que a generalidade dos participantes desco- nhece o argumento.
II Todos os anos o Adriático cresce alguns milímetros so- bre Veneza, o século vinte ameaçado pelas águas.
O que é que se pode esperar de um século que foi cons- truído sobre estacas?
A melhor maneira de conhecer o meu século é de gôndola.
Cada vez mais se apodera de mim a convicção de que a tua salvação passa pela salvação de Veneza (se é que não são uma e a mesma coisa).
A não ser que se tomem as devidas providências, dentro em breve será celebrada na catedral de S. Marcos a primeira missa submarina para cardumes de peixes boquiabertos.
Antes disso porém o leão alado baterá as asas e regressará de novo a Tiro.
Calma! Não há razão para entrarem em pânico. Veneza não será destruída pelas águas mas sim pelo fogo.
Eu tenho um plano concreto para salvar Veneza. O que me parece é que ninguém está disposto a colaborar comigo. Estou a ser alvo de um complot e isto não é paranóia minha. Ainda ontem os seres vermelhos e azuis que vivem no sótão me confirmaram o facto.
Eu sou o condottiere Bartolomeo Calleoni. Hoje apeei-me do meu cavalo e passei anonimamente pela minha Sere- níssima República.
Quando é que a Ponte del Paradiso será de novo aberta ao tráfego?
Aproximam-se épocas de grande religiosidade. Para me preparar vou cultivando religiosamente a cera nos ouvidos.
Prepara-se um século barbudo e de olhos claros. Na altura da fuga vestia umas calças de bombasina lilás, um blusão negro e um lenço branco ao pescoço. Fugiu da História porque a História era demasiado pequena para ele.
Testemunhas oculares reconheceram-no quando tomava um vaporetto perto de Santa Maria della Salutte
Hoje descobri que era uma reincarnação de um doge. Voltei a Veneza e ainda não desisti de recuperar o meu palácio nas margens do grande canal a uma colónia de ratos.
Eu sou a má consciência do meu século. Tenho a cabeça cheia de ratos e não consigo ver-me livre deles. Nenhum raticida (o trigo roxo inclusive) se revelou ainda eficaz.
Todas as pessoas deixam uma marca indelével no século por onde passam, uma pegada na areia ou o nome escrito em letras de oiro no pedestal de estátuas. A única marca que quero deixar é uma pequena mor- dedura atrás da orelha.
Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande Canal... A meus pés corria agora um extenso caudal de coca cola.