As Sete Fontes é um sistema de Abastecimento de água à cidade de Braga. As origens remontam ao Império Romano, Bracara Augusta, como comprovaram algumas escavações arqueológicas. O actual sistema, construído por ordem do Arcebispo Dom José de Bragança, data do século XVIII.
I Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande Canal e pedi uma coca cola... É terrível chegar ao fim do século dos refrigerantes com esta infinita sensação de sede.
O século vinte é um vasto deserto de poços de petróleo. Perfurei o solo da minha terra mas o que me saiu foi um jacto de poemas.
Prospecções recentemente efectuadas revelaram que sob as areias movediças de Veneza se encontra um dos maiores lençóis petrolíferos da Europa.
Esta noite tive um pesadelo. Nas minhas veias não era sangue que corria era petróleo. E acabara eu de desco- brir um poço de sangue.
Eu não estive em Awshwitz nem em Babi Yar nem em Mai Lai. Estive sempre aqui na cama.
& a visão da primeira bomba no céu de Hiroshima fez-me crescer momentaneamente a água na boca, assim como a milhares de apreciadores de cogumelos.
Einstein foi uma espécie de pirilampo, uma das raras Pessoas a possuir luz própria num século onde a maio- ria tacteava no escuro.
24 july 1969 5 am. Neil Armstrong punha o primeiro pé na lua. Eu dormia profundamente. E o meu sono tornou-se nesse momento setenta quilos mais pesado.
Desde que os americanos descobriram que as estrelas tinham pulgas que não me deixa esta comichão sideral.
O meu século não chegou a andar de gatas. Com oito anos já se arrastava pelas minas de carvão, pouco tempo depois combatia nas trincheiras. E as únicas lágrimas que lhe vi chorar foram as dos gases lacrimogéneos.
Picasso morreu antes que pudesse levar a cabo o seu sonho, um único fresco que ocupasse não a abóbada da Capela Sixtina mas a abóbada celeste.
Fernando Pessoa morrera muitos anos antes numa clí- nica lisboeta completamente ignorado, depois de ter colocado um padrão com a cruz das quinas num dos areais de areia mais fina do universo.
Talvez o meu século seja uma comédia banal, embora filmada por homens de talento, onde algumas estrelas se passeiam com tanto àvontade como se fosse na Via Láctea e de que a generalidade dos participantes desco- nhece o argumento.
II Todos os anos o Adriático cresce alguns milímetros so- bre Veneza, o século vinte ameaçado pelas águas.
O que é que se pode esperar de um século que foi cons- truído sobre estacas?
A melhor maneira de conhecer o meu século é de gôndola.
Cada vez mais se apodera de mim a convicção de que a tua salvação passa pela salvação de Veneza (se é que não são uma e a mesma coisa).
A não ser que se tomem as devidas providências, dentro em breve será celebrada na catedral de S. Marcos a primeira missa submarina para cardumes de peixes boquiabertos.
Antes disso porém o leão alado baterá as asas e regressará de novo a Tiro.
Calma! Não há razão para entrarem em pânico. Veneza não será destruída pelas águas mas sim pelo fogo.
Eu tenho um plano concreto para salvar Veneza. O que me parece é que ninguém está disposto a colaborar comigo. Estou a ser alvo de um complot e isto não é paranóia minha. Ainda ontem os seres vermelhos e azuis que vivem no sótão me confirmaram o facto.
Eu sou o condottiere Bartolomeo Calleoni. Hoje apeei-me do meu cavalo e passei anonimamente pela minha Sere- níssima República.
Quando é que a Ponte del Paradiso será de novo aberta ao tráfego?
Aproximam-se épocas de grande religiosidade. Para me preparar vou cultivando religiosamente a cera nos ouvidos.
Prepara-se um século barbudo e de olhos claros. Na altura da fuga vestia umas calças de bombasina lilás, um blusão negro e um lenço branco ao pescoço. Fugiu da História porque a História era demasiado pequena para ele.
Testemunhas oculares reconheceram-no quando tomava um vaporetto perto de Santa Maria della Salutte
Hoje descobri que era uma reincarnação de um doge. Voltei a Veneza e ainda não desisti de recuperar o meu palácio nas margens do grande canal a uma colónia de ratos.
Eu sou a má consciência do meu século. Tenho a cabeça cheia de ratos e não consigo ver-me livre deles. Nenhum raticida (o trigo roxo inclusive) se revelou ainda eficaz.
Todas as pessoas deixam uma marca indelével no século por onde passam, uma pegada na areia ou o nome escrito em letras de oiro no pedestal de estátuas. A única marca que quero deixar é uma pequena mor- dedura atrás da orelha.
Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande Canal... A meus pés corria agora um extenso caudal de coca cola.