Thursday, April 08, 2010

All the cameras have left for another war

Todas as câmaras partiram para outra guerra

Aqueles que sabiam o que se passava aqui

têm que dar lugar àqueles que sabem pouco.

E menos que pouco

E até tão pouco quanto nada.

Those who knew
what was going on here
must give way to
those who know little.


Wislawa Szymborska

A Jóia/The Jewel
– Dunya Mikhail
Voz: Manuela Martinez
Música: Brian Eno & Harold Budd – The Plateaux of mirror
A mulher de Noé/Noah's Wife – Linda Gregerson
Voz: Marta Catarino
Música: Brian Eno & Harold Budd – The Plateaux of mirror
Uma canção no fim do mundo/Song on the End of the World – Czeslaw Milosz
Voz: Luís Barroso
Música: Peter Broderick – floating sinking
“O princípio e o fim” – Wislawa Szymborska
Voz: Marta Catarino
Música: Peter Broderick – floating sinking


An I SAW YOU RUNNING Productions para o SINDICATO DE POESIA

VELHA-A-BRANCA, 29 de Janeiro 2009

Direcção: Sofia Saldanha
Sonoplastia: Paulo Oliveira Sousa e Sofia Saldanha
Imagem: Pedro Guimarães

Friday, June 19, 2009

See as a foreigner





What is life really like inside a conflict zone? A group of young students visited the occupied territories of Palestine to see the land behind the conflict . “See as a Foreigner” reveals the stories, impressions, and feelings of a group of westerners traveling in the Holy Land.

Como é o dia-a-dia numa zona de guerra? Um grupo de jovens estudantes visitou os territórios ocupados da Palestina, numa tentativa de ver o que existe por detrás do conflito israelo-palestiniano. “See as a Foreigner” revela as historias e impressões de um grupo de ocidentais em viagem pela Terra Santa. A Cirjordânia espiada pelo Ocidente.


Producer/Produtor
Sofia Saldanha

Contributors

Isabella Lennert

James Haywood

Meeshka Barnabe

Ahlam Triki

Patrick William Butterfield

Aisha Mirza


and


Matthew Bumford

Marian Hadley

(in the cave)

Featured music


Le Trio Joubran, “Majaz”, “Masâr” (TBC, 2007)

Le Trio Joubran, “Randana”, “Ahwak” (Randana/Fairplay, 2005)





Friday, March 20, 2009

Tu Estás Aqui - Ruy Belo









Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui



Ruy Belo
Toda a Terra
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000

Friday, November 07, 2008

"Five o´clock tea" - Vitorino Nemésio



Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,
Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,
Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou,
Tão distinta, discreta, boa e doce.
Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos
Das pessoas que vão entrando;
Aquela senhora de modos tão finos
E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita
sombra;
Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,
De que não me atrevo a pedir ramo algum
Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando
Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado
de pedir ―
Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,
Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis
e não me apetecer, francamente…
E assim, imobilizado o meu pálido yes
E falando francês àquela senhora inglesa,
Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ―
Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas
de Inglaterra,
E pôs a barra azul na sala, por poesia,
E escureceu os móveis numa tarde toda dourada
Em que mais triste se sentia.
A senhora inglesa,
Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos
trouxe para este dia;
A senhora inglesa dos olhos claros;
A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas
correctas,
E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia
Só com o seu sim ou o seu não,
O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo
Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar
as gengivas
E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,
Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em
Inglaterra!
O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena
(À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus
dedos como asas)
O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar
da Inglaterra,
E desta hora do chá a uma outra hora lá dela,
Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida,
Que não existiu talvez senão para ser lembrada
Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread ―
Que é assim a vida…


Vitorino Nemésio


voz e sonoplasticina: Sofia Saldanha e paulos
Música: Colleen / Alog