Monday, November 24, 2008
Sunday, November 23, 2008
Le souterrain de l'apparence - Vitorino Nemésio
com Marie Manuelle Silva
Saturday, November 22, 2008
Friday, November 07, 2008
"Five o´clock tea" - Vitorino Nemésio
Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,
Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,
Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou,
Tão distinta, discreta, boa e doce.
Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos
Das pessoas que vão entrando;
Aquela senhora de modos tão finos
E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita
sombra;
Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,
De que não me atrevo a pedir ramo algum
Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando
Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado
de pedir ―
Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,
Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis
e não me apetecer, francamente…
E assim, imobilizado o meu pálido yes
E falando francês àquela senhora inglesa,
Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ―
Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas
de Inglaterra,
E pôs a barra azul na sala, por poesia,
E escureceu os móveis numa tarde toda dourada
Em que mais triste se sentia.
A senhora inglesa,
Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos
trouxe para este dia;
A senhora inglesa dos olhos claros;
A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas
correctas,
E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia
Só com o seu sim ou o seu não,
O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo
Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar
as gengivas
E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,
Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em
Inglaterra!
O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena
(À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus
dedos como asas)
O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar
da Inglaterra,
E desta hora do chá a uma outra hora lá dela,
Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida,
Que não existiu talvez senão para ser lembrada
Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread ―
Que é assim a vida…
Vitorino Nemésio
voz e sonoplasticina: Sofia Saldanha e paulos
Música: Colleen / Alog
Friday, October 10, 2008
"Lídia" - Ricardo Reis
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento ‹
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim ‹ à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
Ricardo Reis
voz: Sofia Saldanha
sonoplasticina: Sofia Saldanha
Música: Ian Simmonds
Wednesday, August 01, 2007
"Plano para salvar Veneza" - Jorge de Sousa Braga
Este sonopoema foi realizado para uma instalação sonora no E S P A Ç O [censura prévia], no ano 2005.
ficha técnica:
voz: sofia saldanha
sonoplasticina: sofia saldanha & paulos
música:
matmos - met life (rat relocation program)
cornelius - drop
loscil - diable marine
murcof
supersilent - 6.1
Este vídeo foi realizado por Pedro Guimarães.
PLANO PARA SALVAR VENEZA
I
Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande
Canal e pedi uma coca cola... É terrível chegar ao fim
do século dos refrigerantes com esta infinita sensação
de sede.
O século vinte é um vasto deserto de poços de petróleo.
Perfurei o solo da minha terra mas o que me saiu foi
um jacto de poemas.
Prospecções recentemente efectuadas revelaram que sob
as areias movediças de Veneza se encontra um dos maiores
lençóis petrolíferos da Europa.
Esta noite tive um pesadelo. Nas minhas veias não era
sangue que corria era petróleo. E acabara eu de desco-
brir um poço de sangue.
Eu não estive em Awshwitz nem em Babi Yar nem em
Mai Lai. Estive sempre aqui na cama.
& a visão da primeira bomba no céu de Hiroshima fez-me
crescer momentaneamente a água na boca, assim como
a milhares de apreciadores de cogumelos.
Einstein foi uma espécie de pirilampo, uma das raras
Pessoas a possuir luz própria num século onde a maio-
ria tacteava no escuro.
24 july 1969 5 am. Neil Armstrong punha o primeiro
pé na lua. Eu dormia profundamente. E o meu sono
tornou-se nesse momento setenta quilos mais pesado.
Desde que os americanos descobriram que as estrelas
tinham pulgas que não me deixa esta comichão sideral.
O meu século não chegou a andar de gatas. Com oito
anos já se arrastava pelas minas de carvão, pouco tempo
depois combatia nas trincheiras. E as únicas lágrimas
que lhe vi chorar foram as dos gases lacrimogéneos.
Picasso morreu antes que pudesse levar a cabo o seu
sonho, um único fresco que ocupasse não a abóbada da
Capela Sixtina mas a abóbada celeste.
Fernando Pessoa morrera muitos anos antes numa clí-
nica lisboeta completamente ignorado, depois de ter
colocado um padrão com a cruz das quinas num dos
areais de areia mais fina do universo.
Talvez o meu século seja uma comédia banal, embora
filmada por homens de talento, onde algumas estrelas
se passeiam com tanto àvontade como se fosse na Via
Láctea e de que a generalidade dos participantes desco-
nhece o argumento.
II
Todos os anos o Adriático cresce alguns milímetros so-
bre Veneza, o século vinte ameaçado pelas águas.
O que é que se pode esperar de um século que foi cons-
truído sobre estacas?
A melhor maneira de conhecer o meu século é de gôndola.
Cada vez mais se apodera de mim a convicção de que
a tua salvação passa pela salvação de Veneza (se é que
não são uma e a mesma coisa).
A não ser que se tomem as devidas providências, dentro
em breve será celebrada na catedral de S. Marcos a
primeira missa submarina para cardumes de peixes
boquiabertos.
Antes disso porém o leão alado baterá as asas e regressará
de novo a Tiro.
Calma! Não há razão para entrarem em pânico. Veneza
não será destruída pelas águas mas sim pelo fogo.
Eu tenho um plano concreto para salvar Veneza. O que
me parece é que ninguém está disposto a colaborar
comigo. Estou a ser alvo de um complot e isto não é
paranóia minha. Ainda ontem os seres vermelhos e
azuis que vivem no sótão me confirmaram o facto.
Eu sou o condottiere Bartolomeo Calleoni. Hoje apeei-me
do meu cavalo e passei anonimamente pela minha Sere-
níssima República.
Quando é que a Ponte del Paradiso será de novo aberta
ao tráfego?
Aproximam-se épocas de grande religiosidade. Para
me preparar vou cultivando religiosamente a cera nos
ouvidos.
Prepara-se um século barbudo e de olhos claros.
Na altura da fuga vestia umas calças de bombasina
lilás, um blusão negro e um lenço branco ao pescoço.
Fugiu da História porque a História era demasiado
pequena para ele.
Testemunhas oculares reconheceram-no quando tomava
um vaporetto perto de Santa Maria della Salutte
Hoje descobri que era uma reincarnação de um doge.
Voltei a Veneza e ainda não desisti de recuperar o meu
palácio nas margens do grande canal a uma colónia de
ratos.
Eu sou a má consciência do meu século. Tenho a cabeça
cheia de ratos e não consigo ver-me livre deles. Nenhum
raticida (o trigo roxo inclusive) se revelou ainda eficaz.
Todas as pessoas deixam uma marca indelével no
século por onde passam, uma pegada na areia ou o
nome escrito em letras de oiro no pedestal de estátuas.
A única marca que quero deixar é uma pequena mor-
dedura atrás da orelha.
Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande
Canal... A meus pés corria agora um extenso caudal de
coca cola.
Jorge de Sousa Braga
Wednesday, December 06, 2006
"A Preguiça" - Henri Michaux

A alma adora nadar. Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e parte. Parte a nadar. (Se a vossa alma parte quando estais de pé, ou sentados, ou de joelhos, ou apoiados nos cotovelos, para cada posição corporal diferente a alma partira com uma locomoção e uma forma diferentes, segundo concluirei mais tarde).
Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada com as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. Há imensa gente que tem assim uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosos. Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.
A alma parte a nadar no vão das escadas, ou na rua, consoante a timidez ou a audácia do homem, porque ela conserva sempre um fio que a une a ele, e se esse fio se quebrasse (às vezes é muito fino, mas só uma força terrível o poderia romper) seria terrível para eles (para ela e para ele).
Então, quando ela está entretida a nadar ao longe, escoam-se, por esse simples fio que liga o homem à alma, volumes de uma espécie de matéria espiritual, como lama, como mercúrio, ou como gás – gozo interminável.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois acaso haverá coisa mais egoísta do que a preguiça?
Tem fundamentos que o orgulho não tem.
Mas as pessoas irritam-se com os preguiçosos.
Quando os vêm deitados, batem-lhes, mandam-lhes água fria à cabeça, eles têm de recolher a alma imediatamente. Olham-vos então com esse olhar de ódio, bem conhecido, que se vê sobretudo nas crianças.
HENRI MICHAUX
L'âme adore nager.
Pour nager on s'étend sur le ventre. L'âme se déboîte et s'en va. Elle s'en va en nageant. (Si votre äme s'en va quand vous êtes debout, ou assis, ou les genoux ployés, ou les coudes, pour chaque position corporelle différente l'âme partira dans une démarche et une forme différentes, c'est ce que j'établirai plus tard.)
On parle souvent de voler. Ce n'est pas le cas. C'est nager qu'elle fait. Et elle nage comme les serpents et les anguilles, jamais autrement.
Quantité de personnes ont ainsi une âme qui adore nager. On les appelle vulgairement des paresseux. Quand l'âme quitte le corps par le ventre pour nager, il se produit une telle libération de je ne sais quoi, c'est un abandon, une jouissance, un relâchement si intime...
L'âme s'en va nager dans la cage de l'escalier ou dans la rue suivant la timidité ou l'audace de l'homme, car toujours elle garde un fil d'elle à lui, et si ce fil se rompait (il est parfoi très ténu, mais c'est une force effroyable qu'il faudrait pour rompre le fil) ce serait terrible pour eux (pour elle et pour lui).
Quand donc elle se trouve occupée à nager au loin, par ce simple fil qui lie l'homme à l'âme s'écoulent des volumes et des volumes d'une sorte de matière spirituelle, comme de la boue, comme du mercure, ou comme un gaz --- jouissance sans fin.
C'est pourquoi le parresseux est indécrottable. Il ne changera jamais. C'est pourquoi aussi la paresse est la mère de tous les vices. Car qu'est-ce qui est plus égoïste que la paresse?
Elle a des fondements que l'orgueil n'a pas.
Tandis qu'ils sont couchés, on les frappe, on leur jette de l'eau fraîche sur la tête, ils doivent vivement ramener leur âme. Ils vous regardent alors avec ce regard de haine, que l'on connaît bien, et qui se voit surtout chez les enfants.
HENRI MICHAUX
ficha técnica:
voz: sofia saldanha
sonoplasticina: paulos
música:
triosk
toda essa água
sun o))) & boris
fridge
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jan jelinek
midaircondo
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